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Marcos Corrêa
Muitas coisas chatas e antipáticas da vida terminam passando despercebidas, mas, algumas poucas delas, por sua constância, terminam levando você a meditar e até mesmo a analisar as figuras que, sem esperar, normalmente ou intencionalmente, se deparam com você. Particularmente, confesso, esgotei todas as minhas partículas de paciência no que se refere aos “Pequenos assaltos”, e hoje em dia procuro me segurar no máximo até ceder, porque a minha carteira de cédulas, de ficar pálida, trêmula, choramingar, agora também deu para simplesmente desmaiar. E não é pra menos! Palavra, caro amigo! E isso que vou relatar, abrir o coração pra vocês, não acontece somente comigo, mas com todos nós. E são exatamente vocês que vão me dar razão.
Mas vamos aos fatos ou detalhes como diria um certo radialista. Lá está um de nós (ou eu ou você) caminhando tranquilamente pela rua Jorge Amado, e, não mais do que de repente se depara com um “amigo”, o qual, ao lhe ver, corre para abraça-lo e diz intempestivamente: “Fulano, foi Deus quem colocou você no meu caminho!”. Ouvindo aquilo, a carteira de cédulas estremece e procura logo resguardar as notas de cem e cinqüenta ( se por ventura existirem). E o “amigo” continua: “Rapaz, graças a Deus (e tome Deus!!!) eu me encontrei com uma pessoa de bom coração!”. O pobre do caminhante, já revestido da condição de uma das melhores pessoas do planeta e primo carnal de Irmã Dulce, sem ter saída e nem alternativa, indaga: “Por quê, fulano?”. E ele, na maior cara de pau do mundo, diz: “Rapaz, você sabe que eu trabalho, mas o salário atrasou e vão cortar minha conta de luz hoje. Só você pode me ajudar!”. Agora quem indaga sou eu, leitores: “E daí?”.
Em outra oportunidade, está lá eu ou você, descendo de um ônibus ou de um táxi, ou de um carro particular (que seja!), e ao colocar o primeiro pé na calçada ouve aquela voz eufórica e suplicante: “Meu Deus, fulanão! Eu sabia que Deus não ia me desamparar!”. Abismado, e com a carteira de cédulas tendo crises convulsivas, um de nós indaga: “O que foi criatura?”. E o “amigo”, abraçando você como se fosse a coisa mais querida e preciosa do mundo, abre o jogo: “Fulanão, minha filha é obrigada a tomar esse remédio (e mostra a receita!!!!) todos os dias, e eu estou sem um tostão. Só você pode salvar minha filha, meu amigo!”. Mesmo sem saber se é verdade, se há ou não uma filha, a carteira que nos perdoe a bobagem, mas....quem quer ser culpado pela morte de alguém?
Um outro pequeno assalto, esse bastante trivial, é repetido dezenas de vezes todos os dias. Ta lá o sujeito (eu ou você, não esqueçam!) indo até mesmo degustar um sorvete para respirar um pouco das responsabilidades da vida e do brabo verão, quando aquela voz “amiga” lhe pega de sobressalto: “Fulanão (nos pequenos assaltos é proibida a utilização do “inho”), que sorte lhe encontrar aqui!”. Ouvindo aquilo, a carteira de cédulas tenta escorregar do bolso e se esconder na cueca, mas já é tarde, pois o “amigo” é mais rápido: “Rapaz, eu tô com minha mãe doente em casa e não é que minha mulher acaba de me ligar desesperada dizendo que acabou o gás e eu não tenho um vintém?”. Alguém poderia até questionar: “O que é que eu tenho a ver com isso?”. Só que o “amigo” acaba de passar a responsabilidade para eu ou você. È pouco ou quer mais?
Agora, caros leitores e parceiros, para não me estender demais, nos “pequenos assaltos”, eu juro, confesso, que tem um que continuo tomando um susto e um terror imenso. Sabe quando é? É quando surge inesperadamente o “amigo” que lhe diz bem alto para todo mundo ouvir: “Fulanão, só você pode me salvar!!!”. Essa, gente, sem qualquer dúvida alguma faz qualquer carteira de cédulas pular do bolso e se jogar na sarjeta porque a “facada” é forte demais, e, nós (eu e você, não esqueçam!) sabemos muito bem disso, mesmo que o dito cujo “amigo”, jure de pés juntos, de dedos cruzados, que na primeira, primeiríssima oportunidade, vai lhe restituir o golpe “carteiral”.
Particularmente, como diriam alguns, continuo “virgem”. Nunca recebi um centavo de volta. Espero que, pelo menos, uma pequena parcela dos leitores, tenha tido uma melhor sorte do que eu, porque, tentando “não deixar ninguém morrer” ou “ficar sem cozinhar”, perdi entre alguns “amigos” uns que considerava bons amigos.
Posso até sentir. Mas, certamente, minha pobre e aterrorizada carteira de cédulas suadas, AGRADECE!
O autor é jornalista profissional.
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