Marcos Cordiolli
No final da década de 1970, quando o mundo estava polarizado entre capitalistas e soviéticos e enquanto o laicismo e o feminismo renovavam a modernidade, uma incontestável revolução de massas instituiu uma república islâmica e re-introduziu modos de vida conservadores para os parâmetros ocidentais. A revolução xiita talvez tenha causado um impacto especial no Ocidente, por ter ocorrido no Irã, país que com a sua capital, Bagdá, ocupa lugar privilegiado no imaginário ocidental como símbolo do antigo esplendor do islamismo.
Nada parecia ser mais contraditório aos olhos “progressistas” do iluminismo ocidental que a revolução Xiita. E xiismo virou sinônimo de radicalismo. O ocidente iluminista ficou espantado: como uma revolução de massas, portanto “progressista”, poderia impor modelos de sociedade “regressistas”? E os progressistas conviveram com um dilema: deveriam estar ao lado do direito à “auto-determinação” da população iraniana ou na defesa do estatuto do iluminismo expresso nos Direitos do Homem e do Cidadão? Mas, este foi apenas o ponto de partida da ascensão política do fundamentalismo islâmico radical que tornou-se o principal tema da pauta da geopolítica internacional no início do século XXI.
A peculiar história do Irã ajuda a compreender porque foi palco desta singular revolução. O Irã foi um dos poucos territórios de população majoritária muçulmana, que conseguiu manter a autonomia política, durante o fim do século XIX e início do XX, quando outros paises caíram sob domínio europeu. Também constitui no início do século XX uma relativa institucionalidade política constitucional envolvendo parte significativa da população. O fator decisivo neste processo foi à eclosão de uma revolução constitucionalista, em 1905, que instituiu a monarquia sob a Dinastia Pahlevi; movimento muito peculiar para esta região do mundo e contemporâneo das jornadas democráticas na Rússia Czarista.
As instituições políticas da monarquia iraniana, bem como a habilidade de sua diplomacia, garantiram a sobrevivência do regime monárquico, embora à região estivesse sempre na cobiça do Reino Unido e da Rússia e, posteriormente, dos Estados Unidos, devido à posição geopoliticamente estratégica e as grandes reservas de petróleo. Mesmo em 1940, quando o monarca (denominado Xá) flertou abertamente com o nazismo, provocando a ocupação militar do país pelo Reino Unido e União Soviética, mas o Irã não perdeu a soberania política.
Durante o período da Guerra Fria, nas décadas de 1950 a 1960, o Oriente Médio tornou-se uma região estratégica no cenário geopolítico, tanto pela proximidade com a União Soviética como pela influência do pensamento de esquerda nos movimentos nacionalistas árabes. Outro fator político agravante da situação do Oriente Médio foi à fundação do Estado de Israel instituindo a situação de conflito permanente entre judeus e árabes no âmbito local, o que também provocou a tensão entre muçulmanos e o ocidente (pelo apoio ao Estado Judeu) no cenário mundial. A eclosão da crise do Petróleo em 1973, desencadeada pelas guerras expansionistas de Israel, valorizou ainda mais a região que já era uma importante fornecedora de petróleo ao mundo capitalista.
Nesse contexto, a monarquia iraniana aliou-se aos Estados Unidos tornando-se um importante agente do capitalismo naquela região, valorizando ainda mais a sua função no jogo geo-estratégico da época.
A monarquia iraniana, deslumbrada com o prestigio político desfrutado no ocidente e enriquecida com a exportação de petróleo, implementou fortes processos de ocidentalização cultural do país e passou a ostentar despudoradamente a sua riqueza num país de muita pobreza. A população islâmica do país, em sua maioria empobrecida, mas coerente com as tradições parlamentares do país, manifestou o descontentamento, respondendo com significativas mobilizações populares.
A monarquia, então pouco sensível ao clima político interno, endureceu o regime reprimindo os opositores. A oposição ao regime foi hegemonizada pelos fundamentalistas xiitas, uma das grandes correntes muçulmanas que, liderados pelos religiosos conservadores, capitalizaram o descontentamento da população, ampliaram a influência política. Em 1979, amparados por ampla mobilização social, radicalizaram as suas posições ideológicas, derrubaram a monarquia, instituindo a república islâmica e estruturaram a sociedade e o estado com bases teocráticas conservadoras.
A característica notável da revolução foi a grande mobilização de massas nessa época e naquela região do mundo. As passeatas e protestos chegaram a mobilizar em um único evento mais de 10% da população, ou seja, reuniam mais de 4 milhões de pessoas. Esta característica levou a revolução a ganhar a simpatia tanto de governos da Europa como de movimentos revolucionários de esquerda.
A influência religiosa no processo revolucionário é outra característica desta revolução, comandada diretamente pelos aiatolás (as autoridades religiosas do islamismo xiita) tendo Ruhollah Khomeini como líder principal. Como resultado, a revolução implantou um regime de governo teocrático supostamente representando as vontades divinas, impondo regras para a vida cotidiana orientada pelas tradições morais conservadoras islâmicas. Dentre estas regras o destaque foi a obrigação das mulheres de permanecerem em posição de submissão aos homens e tendo, entre outras, a determinação de cobrir todo o corpo com o shador. O governo revolucionário também proibiu a cobrança de juros e outros mecanismos de exploração financeira.
A vitória da revolução xiita na Irã foi uma derrota política importante dos Estados Unidos, contemporânea a vitória Sandinista na Nicarágua e, ainda, sob o impacto do fracasso militar no Vietnã. Nesse contexto, os Estados Unidos ameaçaram ocupar militarmente o Irã, levando os militantes da revolução xiita a invadir a embaixada estadunidense e a tomar vários funcionários como reféns. Este ato representou uma humilhação política sem precedentes aos Estados Unidos. Os Estados Unidos, em reação imediata, estimularam e financiaram o ataque militar do Iraque ao Irã. Mas, ao contrario do esperado, a situação de guerra fez com o que governo islâmico pudesse ampliar ainda mais a hegemonia religiosa e ideológica sobre a população.
As ameaças estadunidenses mantiveram as mobilizações populares no Irã, reforçando a direção ideológica xiita o que lhes garantiu maior coesão ao regime islâmico, possibilitando a assimilação de grupos dissidentes e moderados. O regime xiita foi radicalizando a sua ideologia, ampliando o fundamentalismo, e expressando oposição ao modo de vida ocidental e, em particular, cultivando o ódio aos Estados Unidos. A revolução passou a convocar as populações islâmicas à “Guerra Santa” contra os “infiéis” ocidentais e cristãos.
Os Estados Unidos, nos anos 1980, tentaram conter a expansão da revolução xiita fortalecendo movimentos sunitas nos paises vizinhos. Assim, apoiaram o corrupto governo ditatorial de Sadam Hussein no Iraque e à guerrilha sunita fundamentalista do Taleban, no Afeganistão, que lutava, na época, contra a ocupação soviética. Ações que fomentaram dois agentes políticos que nos anos de 1990 voltaram-se contra o próprio Estados Unidos e cujas conseqüências estão ainda se manifestando neste início de século XXI.
A vitória do xiismo no Irã estimulou a retomada política do islamismo e o fortalecimento do fundamentalismo conservador muçulmano como alternativa política para as populações oprimidas da região. Na década de 1970, as lutas políticas na região foram hegemonizadas por ideologias de esquerda e laicas impulsionadas pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e pelo Partido Baath no poder na Síria e no Iraque; que faziam certa oposição aos Estados Unidos, mas contavam com apoio da Europa e mantinham laços políticos com a União Soviética.
Após a revolução iraniana, o seu modelo político encontrou seguidores no Líbano, outro país com significativa população xiita, que fundaram o Hezbollah. A multiplicidade de grupos e etnias no Líbano, no entanto, não permitiu que o Hezbollah, embora forte, conseguisse uma unidade básica nem mesmo entre os xiitas locais.
Além do Líbano, os xiitas atuam politicamente no Iêmen e no Bahrein. No Iêmen, os xiitas - minoritários entre a população local – estão em conflito com o governo sunita reivindicando maior autonomia em regiões ao norte do país. No Bahrein, outros pais de maioria xiita, mas com governo controlado por sunitas, já há manifestação de uma guerrilha na fronteira com a Arábia Saudita, embora a riqueza do governo que garante melhores condições de vida a população, reduza o impacto destes movimentos nas áreas urbanas.
A revolução xiita serviu de modelo para o fundamentalismo sunita, que também radicalizou as suas posições e aderiu à “convocação” da “guerra santa” contra os Estados Unidos, liderados por Osama Bin Laden e sua complexa rede de grupos fundamentalistas radicais denominada de Al-Qaeda. O fundamentalismo sunita já estava no poder no Afeganistão, após derrotar a ocupação soviética com apoio financeiro e militar dos Estados Unidos. A radicalização do fundamentalismo sunita foi motivada pela ocupação militar do Iraque pela Otan e pela violência estatal de Israel na Palestina ocupada. A presença de tropas estadunidense no território da Arábia Saudita, durante a primeira guerra do Iraque nos anos 1990, foi o motivo para que Osama bin Laden assumisse a postura contraria aos Estados Unidos, passando de aliado a opositor.
O fundamentalismo conservador passou a atuar nas duas maiores correntes islâmicas, capitalizando politicamente o descontentamento das populações muçulmanas e abrindo um grande período de conflito ocidente-oriente médio e cristão-islâmico. A situação foi ampliada no grau de tensão com a adoção de ações terroristas na Europa e Estados Unidos (a Argentina também acusou o envolvimento de militantes iranianos em ataque a uma instituição judia em Buenos Aires), em particular pela ação de militantes-bomba com ações no exterior, que culminaram com os acontecimentos de 11 de setembro de 2001.
Os Estados Unidos responderam aos atos terroristas com a ocupação militar do Iraque e do Afeganistão, enfrentando acirrada resistência dos fundamentalistas islâmicos. Somaram-se o acirramento da intífada (insurreição palestina nos territórios ocupados) e gradativo aumento da influência islâmica entre os palestinos em detrimento da histórica e laica OLP. Assim xiitas e sunitas fundamentalistas radicalizados ampliaram a presença entre os muçulmanos e potencializaram o movimento revolucionário islâmico.
No inicio do século XXI, o cenário geopolítico internacional é fortemente influenciado pelos processos abertos pela revolução xiita iraniana, considerando em particular os seguintes fatores: (a) a Europa e os Estados Unidos (os países com maior taxa de crescimento do islamismo) são vulneráveis a ataques terroristas de proporções crescentes em seus territórios; (b) a influência grupos islâmicos radicais está em expansão no mundo islâmico (sendo que são 59 os paises com população majoritariamente muçulmana) localizados no sul da Ásia (inclusive nas ex-repúblicas soviéticas do Cáucaso e na minoria muçulmana uigure na China), no Kosovo (na península Balcânica) e no norte da África; (c) o crescimento do fundamentalismo islâmico radicalizado na palestina ocupada está acirrando o conflito permanente com Israel e desmantelando os processos de paz e conciliação; (d) a forte resistência a ocupação militar do Afeganistão e do Iraque liderada por grupos fundamentalistas radicais islâmicos; e (e) a ampliação do domínio das tecnologias de armas nucleares pelo Irã, reacende as ameaças de guerra nuclear.
O Irã, neste contexto, passou a ser o único estado que apóia abertamente as ações fundamentalistas islâmicas, inclusive terroristas (setores do governo da Arábia Saudita têm sido acusados, reiteradamente, de apoiar secretamente movimentos fundamentalistas sunitas). Este apoio é estendido a movimentos sunitas na palestina, chegando a pagar pensão para as famílias dos militantes-bomba mortos em ações terroristas. Assim, o Irã segue sendo o governo guardião do fundamentalismo conservador aos olhos de milhões de muçulmanos oprimidos e humilhados pelas políticas belicistas estadunidenses. Posição fortalecida com a classificação do país como integrante do suposto Eixo do Mau (ao lado da Coréia do Norte e da Síria) pelo ex-presidente estadunidense George W. Bush. Esta situação pode ser ilustrada com o exemplo recentemente: em 2004, quando da realização de uma partida de futebol em que o Irã derrotou os Estados Unidos, enquanto a diplomacia estadunidense sinalizava como o desejo para a reaproximação entre os países, um dos lideres iranianos afirmava categoricamente: “... que o inimigo deve ser batido em todos os campos”.
A posição de enfrentamento com os Estados Unidos passou a ser um forte instrumento político dos revolucionários xiitas. Por outro lado, os Estados Unidos adotaram posições beligerantes e de forte intolerância ao islamismo fundamentalista radical, em particular nos períodos de governos do Partido Republicano, estimulados pelo poderoso looby das indústrias bélicas. Assim temos uma permanente escalada de conflitos que parece atender a dois interesses: (a) o fundamentalismo radical islâmico faz da ameaça dos Estados Unidos o seu principal combustível mobilizador; e (b) os Estados Unidos fazem do crescimento do radicalismo islâmico a sua principal justificativa para manter os gastos militares.
O autor é educador e produtor de cinema. http://cordiolli.wordpress.com . Publicou artigos e livros diverso sobre educação, economia, história e política. Produtor Associado de O Sal da Terra (Longa-metragem de Elói Pires Ferreira, Brasil, 2008); Diretor de Produção – com Eloi Pires Ferreira - de Conexão Japão (Longa-metragem de Talicio Sirino e Salete Machado, Brasil, 2008); Produtor e Produção Executiva de Curitiba Zero Grau (Longa-metragem em produção); Produtor Executivo de A floresta é nossa (Longa-metragem em animação de Paulo Munhoz, em produção).
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