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O dossiê de Rangel não me atinge, afirma Isaac Albagli


Isaac Albagli

Crédito: JBO

 

Está na Bahia Pesca o maior problema político hoje enfrentado pelo governador Jaques Wagner. Administrado pelo Partido Progressista, a empresa vem sendo acusada pelo líder do PT na Assembléia Legislativa, deputado Paulo Rangel, de ser instrumento político para beneficiar uma possível candidatura à deputado estadual de Mário Negromonte Filho. No centro desta discussão, o engenheiro agrônomo ilheense Isaac Albagli, de 53 anos, presidente da BP.

“Não há nenhum tipo de favorecimento. Nem tão pouco de irregularidades no órgão”, garante Albagli, nesta entrevista exclusiva concedida ao Jornal Bahia Online. Tanto que se diz tranquilo com a decisão do secretário Roberto Muniz em apurar as denúncias formuladas pelo deputado Paulo Rangel. A direção do PP alega que tudo não passa de “ciúmes”, já que o deputado Rangel suspeita, na verdade, que estaria perdendo parte de sua base eleitoral para Negromonte Filho.

O assunto “Bahia Pesca” tem estado em todos os jornais da Bahia. E tem servido como "isca" perigosa para os adversários do governo. É uma dor-de-cabeça para o governador Wagner e, segundo Isaac Albagli, um alívio pessoal que tudo venha a ser apurado. Um fonte no Palácio de Ondina revela a preocupação com os desdobramentos desta crise. Isaac tem apenas nove meses no comando da empresa. Mas as denúncias parecem anteceder a sua gestão. E podem atingir o próprio PT, que comandava a Bahia Pesca até a chegada do PP à base aliada. "Nenhum dos dois lados sairá ganhando. Mas o governador poderá perder alguma coisa nesta história", revela a fonte, que elogia a postura apaziguadora de Albagli.

Nesta entrevista Isaac fala do problema e dá “pitaco” na política baiana. Diz que Wagner ganha a reeleição, Veloso terá problemas para 2010 e critica – mesmo que de forma velada – a deputada Ângela Souza, do PSC. “Não podemos ter na AL representantes que só pensem em miudezas e cargos para seus cabos eleitorais”, alfineta. Isaac Albagli também faz uma revelação assustadora que deve abrir os olhos do governador Wagner. Diz que o vazamento do dossiê foi usado para fins de chantagem. “Isso é deplorável. Se há irregularidade, o certo é denunciar, e não ficar passando papel de um para outro”.

Confira o jogo aberto com Isaac Albagli que, no momento, faz um curso de pós-graduação em gestão pública. Mas, em outras oportunidades, se mostrou mestre na arte de enfrentar os seus adversários mais ferrenhos.

 

A denúncia do deputado Paulo Rangel na Assembléia Legislativa e na imprensa de que a Bahia Pesca comprou ração com superfaturamento e que possui irregularidades em vários convênios causou, digamos, certo constrangimento ao governo.  Inclusive o deputado entregou um dossiê ao secretário de Agricultura Roberto Muniz que mandou abrir sindicância para apurar os fatos. O senhor teme alguma coisa?

Estou absolutamente tranquilo. O maior interessado em que as coisas se esclareçam sou eu. Recebi do secretário Muniz o tal dossiê e posso lhe adiantar que nada do que foi ali denunciado se refere à nossa administração. As supostas irregularidades em convênios também são de outras gestões e alguns problemas foram iniciados no ano de 2002. Sobre a ração que alegam estar com preço acima do mercado, posso lhe afirmar que o processo de compra está legal. A deputada Eliana Boaventura, em nome do nosso partido, já fez a defesa da tribuna da AL, pronunciamento considerado tecnicamente como muito bom e esclarecedor. Não pretendo falar mais sobre o assunto, pois quem perde com isso é o governador Wagner. Quando assumi a direção da empresa há nove meses, mostrei ao Conselho de Administração os problemas encontrados, e me comprometi a trabalhar para arrumar a casa. É o que venho fazendo. Agora surge esse fato lamentável, mas como disse, nossa preocupação é zero, com relação à minha participação em qualquer ato irregular.

 

“Algumas árvores dão fruto em poucos anos, e outras demoram mais. Contudo, o princípio básico é esse: a semente tem que ser plantada”.

Essas denúncias não terminam atrapalhando os trabalhos da empresa daqui para a frente? Tudo que se fizer não vai ficar sob suspeição?

Absolutamente. Estamos trabalhando como se nada tivesse ocorrido. Ao contrário, temos que aproveitar o “outro lado da moeda” para redobrar a atenção nos procedimentos administrativos, mostrando aos servidores que sempre terá alguém que poderá dar uma interpretação equivocada e esses atos, e até se provar a verdade a gestão fica sangrando aos olhos da população.  Para lhe dizer a verdade, o episódio foi lamentável, mas serve de combustível para que possamos fazer muito mais pelo setor pesqueiro e aquícola do estado. Os projetos dos terminais pesqueiros de Ilhéus e Salvador, o Programa de Subsídio do Óleo Diesel Marítimo, os projetos de aqüicultura familiar em tanques-rede, e mais dezenas de projetos estão saindo do papel e se tornando realidade.  Encontramos apenas 64 tanques-rede implantados e hoje já são mais de 1.000 em plena atividade. Elaboramos diversos projetos estratégicos que somam mais de 30 milhões para captação de recursos junto ao Ministério da Pesca e Aqüicultura. Estamos preparando um relatório detalhando a prestação de contas de nossas ações. Demos um salto qualitativo e quantitativo muito grande.

 

“As supostas irregularidades em convênios também são de outras gestões e alguns problemas foram iniciados no ano de 2002”.

O senhor acha que esse vazamento de documentos foi efetuado por pessoas ligadas ao deputado Rangel que ocupam cargos estratégicos na empresa?

Em princípio todos os documentos são públicos, e, portanto eles podem ser consultados por qualquer cidadão, esteja ele integrando ou não a administração da empresa. O problema é quando o vazamento é utilizado para se dar uma conotação distorcida. O processo de compra da ração, por exemplo, está absolutamente dentro da legalidade. Tratou-se de uma inexigibilidade de licitação em razão da urgência para a aquisição dos produtos, que estão sendo utilizados nas estações de piscicultura da Bahia Pesca espalhadas em todo estado. Foi uma compra onde os custos do transporte até essas estações estavam embutidos. Daí não podendo ser comparados com “preços de balcão”, como disse a deputada Eliana Boaventura em seu discurso. Um deputado da oposição distorceu o que a deputada falou, e atribuiu a ela a mensagem de que “o governo não pode comprar a preços de balcão”. Jamais a deputada Eliana se pronunciou dessa forma, mas parte da imprensa preferiu acompanhar a palavra distorcida do deputado da oposição. É só ler o discurso de Eliana Boaventura que todos saberão o que ela disse. Quanto aos documentos do tal dossiê, embora não relacionados à nossa administração, consideramos que o vazamento para fins de chantagem é deplorável. Se há irregularidade, o certo é denunciar, e não ficar passando papel de um para outro. Repito: nada ali denunciado se refere à nossa administração, mas não concordo com esse tipo de prática, muito comum em outros tempos, mas inaceitável em um estado democrático de direito.

 

“O episódio foi lamentável, mas serve de combustível para que possamos fazer muito mais pelo setor pesqueiro e aquícola do estado”.

Mudando de assunto. E o porto pesqueiro de Ilhéus? Como anda, quando será iniciado? É verdade que o Ministério da Pesca colocou no orçamento deste ano apenas o terminal de Salvador?

Estamos dentro do cronograma de ação. Já fizemos as audiências públicas para a validação da escolha do local, já apresentamos o projeto básico ao Conselho Municipal de Meio Ambiente e o Ministério da Pesca já está de posse do Projeto de Concepção, que norteará a elaboração do convênio para o repasse dos recursos. A qualquer momento estaremos assinando o convênio, e a partir daí, trataremos das outras etapas, que são os projetos executivos, licitação, etc. Se tudo correr bem, acreditamos que a licitação sairá ainda este ano. Quanto ao orçamento federal de 2009, realmente esse fato ocorreu, mas aqui não culpo o ministério. Mesmo com o comando do governo estadual, especialmente da Casa Civil dirigida pela secretária Eva Chiavon, que determinou prioridade nos dois terminais, somente o de Salvador andou. O Ministério da Pesca, então, colocou no orçamento apenas o terminal da capital, ficando o de Ilhéus, em princípio, excluído. Conseguimos reverter esse quadro, adiantando os projetos e promovendo gestões no MPA, onde a participação do secretário geral do PP na Bahia, Jabes Ribeiro, foi fundamental, bem como do deputado Mário Negromonte, presidente do nosso partido.

 

“Quanto aos documentos do tal dossiê, embora não relacionados à nossa administração, consideramos que o vazamento para fins de chantagem é deplorável. Se há irregularidade, o certo é denunciar, e não ficar passando papel de um para outro”.

Então, pelo que o senhor está dizendo, se não fossem as ações dos ilheenses Isaac Albagli e Jabes Ribeiro o terminal pesqueiro de Ilhéus não sairia do papel?

Não disse isso. O que aqui falo, e é a pura realidade, é que a nossa presença na Bahia Pesca possibilitou resgatar o Terminal Pesqueiro Público de nossa cidade em igualdade de condições com o de Salvador. Isso é inegável. Você sabe como é, um atraso aqui, outro ali, e o projeto vai sempre ficando para o outro ano... Priorizamos os dois terminais e ponto. Não apenas o de Salvador. Em nossas tratativas para reverter o problema, mostramos ao Ministro Altemir Gregolin que o terminal pesqueiro de Ilhéus será mais importante do que o de Salvador, sob o ponto de vista econômico. Isso devido a nossa localização privilegiada. Ilhéus, como sabemos, está no centro do litoral brasileiro, e isso possibilitará a atração de embarcações de outros estados, fazendo com que o pescado se torne “baiano”. Ou seja, hoje os barcos de outros estados pescam em nosso litoral e desembarcam nos seus portos de origem, seja no Espírito Santo, no Rio de Janeiro ou descarregam em barcos de apoio. A Bahia perde, evidentemente. O terminal de Salvador, por outro lado, é muito importante em termos sociais, pois sua vocação estará mais voltada para o apoio às centenas de embarcações de menor porte da região no entorno da Baía de Todos os Santos.

A Bahia possui o maior litoral do Brasil, com cerca de 1.200 km, mas é apenas o terceiro estado produtor de pescado. O que está havendo, falta planejamento, incentivo ao setor?

Falta um pouco de cada. Na realidade, primeiro temos que desmistificar essa relação direta de quilômetro de litoral versus produção. Vou tentar sintetizar: o Estado de Santa Catarina é o maior produtor de pescado porque lá, além da estrutura espetacular de recepção e beneficiamento dos pescados, existe o mais importante, que é a temperatura das águas propícia para a pesca de peixes de cardume, a exemplo da corvina, que é um peixe de terceira qualidade, mas muito consumido no Brasil, devido ao preço mais baixo. As correntes frias vindas da Patagônia propiciam a disponibilização de algas que se transformam em alimentos para os peixes. No nordeste, com a temperatura da água mais quente, esse fenômeno não acontece, e, portanto a nossa vocação é a pesca de peixes de qualidade, a exemplo do badejo, e a pesca oceânica do atum, do meca, do dourado, que são peixes migratórios de águas mais profundas. Então, para que a Bahia possa se tornar o maior produtor de pescado precisa de estrutura portuária e incentivo aos cultivos em cativeiro, principalmente nas águas continentais. A tilápia está sendo muito bem aceita, pois é um excelente peixe, e nosso clima quente favorece a engorda. No caso da aqüicultura é o inverso: aqui o clima nos favorece, e temos que tirar partido disso. É o que estamos fazendo.

 

“Ilhéus, como sabemos, está no centro do litoral brasileiro, e um Terminal Pesqueiro na cidade possibilitará a atração de embarcações de outros estados, fazendo com que o pescado se torne “baiano”.

E sobre política, como o senhor está vendo o quadro sucessório estadual e as eleições para a Assembléia Legislativa e Câmara Federal?

Tenho evitado falar sobre política para me concentrar na gestão da Bahia Pesca. Creio que meu trabalho trará resultados positivos para o partido que me indicou [Partido Progressista]. Mas como eleição ainda é a minha cachaça, não consigo deixar de dar um pitaco. Anotem aí: Wagner ganha as eleições. Quando, eu dizia oito meses antes das eleições para prefeito que João Henrique seria reeleito, muitos riam da minha cara. Eu tinha dados que indicavam uma baixa aceitação do prefeito, e naquele momento ele era o quarto colocado, mas não havia um sentimento de mudança. Eu dizia que durante o programa eleitoral na TV ele reverteria o quadro. E reverteu. Hoje, o governador Wagner está na frente em todas as pesquisas, e a tendência é ele descolar mais adiante e vencer ainda no primeiro turno. Anotem aí.  Falhas no governo existem, mas as ações positivas são bem maiores, e a população saberá avaliar. Sobre a eleição para deputado estadual, o que posso dizer é que Jabes terá uma grande votação em Ilhéus. Isso é algo que não precisa ser dito, pois o povo está observando. Qual a razão? Ilhéus sente que necessita de um líder na Assembléia Legislativa que defenda os interesses da nossa cidade com grandeza. Não podemos ter representante que só pensa em miudezas e cargos para seus cabos eleitorais. Ilhéus é grandiosa, Ilhéus é pujante, tem que ter representante à altura. Creio que o perfil de Jabes ajuda nisso. Arrisco dizer que Jabes será eleito com uma das maiores votações da Bahia.

E a Câmara Federal? Quem é a bola-da-vez?

O meu amigo (deputado federal Raimundo) Veloso está fazendo um mandato que deixa a desejar, e creio que não terá votação expressiva em Ilhéus. O caminho está aberto. Se surgir um nome novo que caia no gosto da população ele terá muito voto. Não estou me referindo a fenômenos como Pipa. Hoje não há mais espaço para políticos sem conteúdo. Na era da Internet, da comunicação globalizada, o eleitor valoriza o seu voto a cada eleição. A “blogalização” está aí. A turma do Pimenta, o Gusmão, Sarrafo, Rabat e outros, vão pautando o conhecimento de forma dinâmica,  como nunca se viu. Quando falo “nome novo”, é novo como candidato a deputado federal. Se ele já for conhecido do eleitor, melhor, pois já começa num patamar médio, o que favorecerá seu crescimento.

 

“Eleição ainda é a minha cachaça, não consigo deixar de dar um pitaco. Anotem aí: (Jaques) Wagner ganha as eleições”.

E sobre a administração do prefeito Newton Lima?

Prefiro não me pronunciar. Ocupo cargo de confiança no governo estadual, e o prefeito faz parte da base de apoio. Tenho grandes amigos no governo, e torço para que Newton encontre o rumo. Um ano antes de Nilton substituir Valderico eu o encontrei na rua e disse: se prepare que você vai assumir. Ele sorriu. Estava na cara que Valderico não governaria até o fim. Naquela época ninguém falava em cassação do prefeito, mas a intuição me indicava esse desfecho. Agora vou dizer outra coisa para o prefeito. Anote aí, Newton, certa pessoa vai pular da canoa lá adiante. Não por discordar de seu governo, mas por puro oportunismo político. Lembra daquele ditado que diz que um cesteiro que faz um cesto, faz cem cestos? Pois é, veremos esse filme outra vez. Questão de tempo.

 

“O meu amigo (deputado federal Raimundo) Veloso está fazendo um mandato que deixa a desejar e creio que não terá votação expressiva em Ilhéus. (...) E não podemos ter na AL representantes que só pensem em miudezas e cargos para seus cabos eleitorais”.

O senhor foi uma das pessoas que mais lutaram para a implantação da ZPE em Ilhéus. O senhor acredita que ela seja implantada? O Complexo do Porto Sul ajudará a concretização do projeto?

O momento é mais do que oportuno, pois a infraestrutura que será implantada em nossa cidade, com porto, aeroporto internacional e ferrovia dará o suporte logístico necessário para que a nossa ZPE seja uma das melhores do Brasil. Eu sou um otimista inveterado. Sempre acreditei na ZPE, e nunca deixei de lutar pela sua concretização. Posso afirmar que agora a coisa vai. São 22 anos de luta, 22 anos de incertezas, mas quando agente acredita, o sonho acaba se tornando realidade. A lição que tiramos dessa espera é que vale a pena plantar a semente. Algumas árvores dão fruto em poucos anos, e outras demoram mais. Contudo, o princípio básico é esse: a semente tem que ser plantada. Assim fizemos.

Para finalizar, quais as suas paixões?

Meus filhos, minha mulher, meu neto, minha linda família e a saudade de meu pai. A cachaça, como disse, não é a política em si, mas “eleições”. Adoro o clima, as articulações, o estresse, a expectativa...   E o Flamengo, é claro! Mesmo sem Adriano é um timaço. Tem garra, é odiado por alguns e amado por muitos.

Amado e odiado como o senhor?

Mais ou menos. (risos)!

 


Isaac Albagli

Crédito: JBO

 
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