Entrevistas Jabes revela mágoa com Souto e diz que Wagner governa com diálogo
Jabes Ribeiro
Crédito: JBO
Nesta entrevista exclusiva ao JBO, o secretário do Partido Progressista da Bahia abre o jogo.
Fala dos caminhos que o governador Jaques Wagner terá que percorrer para manter a aliança com o seu e os demais partidos da base aliada e, pela primeira vez, revela: tem mágoas do ex-governador Paulo Souto, principal adversário de Wagner na sucessão 2010.
Para Jabes Ribeiro, ao avaliar os caminhos que percorreu nos quase 30 anos de vida pública, houve erros e acertos na sua ida para o carlismo. Ele critica a forma de governar na base do chicote, medo e intimidação e revela um fato inédito sobre os bastidores da política ilheense.
Segundo informou, rompeu politicamente com a deputada Ângela Sousa, que foi sua vice, quando ela fez uma proposta de assumir o governo sob a condição de demitir todos os integrantes de cargo de confiança no Palácio Paranaguá.
A entrevista - concedida ao editor do Bahia Online, Maurício Maron - está imperdível.
Secretário, qual seria hoje a principal exigência do Partido Progressista para apoiar a reeleição de Jaques Wagner para o governo da Bahia?
Vivemos na Bahia hoje muita especulação. Isso é natural em um processo sucessório. O que é novidade hoje não é mais amanhã. É impressionante. O PP está conversando com o governador e com o PT sobre 2010 e uma coisa que o partido coloca como condição sine qua non para apoiar o governador – e eu sinceramente desejo que o apoio seja dado a ele - é a exigência de uma coligação proporcional. Nós só temos condições de apoiar este projeto resolvendo o problema da coligação proporcional para as chapas federal e estadual. O que posso afirmar é que na conversa que temos tido até agora, essa questão está bem adiantada para fazermos isso com o PT. Isso viabiliza iguais condições na disputa.
Mas a vontade do governador muitas vezes não representa a vontade do Partido dos Trabalhadores da Bahia. Há conflitos. E conflitos públicos, inclusive...
... pois é. Conversamos com o governador e já tivemos uma conversa com o presidente (do PT da Bahia) Jonas Paulo. Também tivemos uma sinalização positiva do secretário de Relações Institucionais, Ruy Costa. A instância partidária precisa ter evidentemente uma decisão clara sobre o assunto. As conversas são animadoras.
“Nós só temos condições de apoiar este projeto (reeleição de Wagner) resolvendo o problema da coligação proporcional para as chapas federal e estadual”.
Como o senhor analisa a aliança que o governador pensa em construir para 2010? Esta aliança terá o PMDB, por exemplo?
O ideal era manter a mesma aliança de 2006 e ampliá-la, inclusive. No entanto creio que os últimos acontecimentos, sobretudo as afirmações do ministro Geddel Vieira Lima nos encontros que o PMDB tem realizado pelo interior, vejo como uma operação extremamente difícil em que só há neste país um nome capaz de mudar essa possibilidade: o presidente Lula.
Mas o ministro Geddel, numa entrevista exclusiva ao Jornal Bahia Online, disse que o presidente Lula nunca lhe pediu para diminuir ou acabar com as críticas e cobranças ao governador Jaques Wagner...
... Me parece que esta relação da Bahia só tende a avançar com uma relação mais direta, uma conversa franca, que é fundamental na ação política, entre Geddel e Wagner. O presidente Lula deve mesmo entrar para intermediar e contribuir com a relação em último caso.
“Em política nunca é bom esquecer o verso shakesperiano que diz que ‘pobre de um homem que não tem paciência´”.
A tal pressão acontece somente por parte do PMDB? O senhor mesmo disse recentemente que o compromisso do PP com o governador é até 2010. É um compromisso de administrar o estado agora. Isso também não é uma forma de pressionar?
O governador nos disse quando construímos a aliança na Bahia que ela acontecia em nome da governabilidade. Ele foi muito taxativo: em 2010 voltamos a sentar para conversar. Agora o que precisa ser dito é que no momento em que você tem um discurso crítico e público com o governo me parece que a medida mais sensata seria deixar o governo. O governador também poderia demitir? Sem dúvida que sim. Mas é preciso também pensar a situação do governador que tem o seu partido aliado nacionalmente com o PMDB e tem um ministro da Bahia como personagem influente desta relação. Me parece que Wagner tem tido uma atitude de extrema cautela – que alguns consideram até demasiada. Mas isso está ligado à aliança nacional e à perspectiva de segundo turno. Em política nunca é bom esquecer o verso shakesperiano que diz que “pobre de um homem que não tem paciência”.
A chegada do PP no governo não foi tão simples assim. Houve resistências fortes. E, hoje, como está esta relação?
Excelente. Nós temos com o governador uma relação republicana, positiva, amiga e fraterna. Evidente que nos queixamos de algumas operações. Temos críticas no atendimento aos prefeitos, às suas demandas e até a uma maior participação nossa nos municípios. Nós temos bases que reclamam permanentemente. Parece que a tensão com o PMDB tem sido um elemento importante no adiamento de decisões que o governo precisa tomar. O tempo tá passando e se as questões com o PMDB estão neste nível, está na hora de um carinho maior com os demais aliados para que você tenha consistência política e eleitoral.
Opositores do governador dizem, com um alto tom de ironia, que comparar a performance administrativa de Jaques Wagner com o ex-governador Waldir Pires, seria uma falta de reconhecimento e de respeito a Waldir Pires. Como o senhor, que foi secretário de Waldir e hoje é da base aliada de Wagner analisa o raciocínio dos integrantes do DEM, partido no qual o senhor também esteve por um bom tempo?
Você governar na base da porrada, da pancada, do chicote, do medo e da intimidação é diferente de você governar democraticamente. Isso não isenta o governo de ser mais ágil em algumas questões. Nos últimos dois anos que fui prefeito, Paulo Souto esteve aqui e prometeu 30 milhões de obras. O que saiu para Ilhéus? Absolutamente nada. Então eu prefiro muitas vezes alguém que só assuma aquilo que vai fazer, tendo condições de realizar.
“O tempo tá passando e se as questões com o PMDB estão neste nível, está na hora de um carinho maior com os demais aliados para que você tenha consistência política e eleitoral”.
... É uma declaração de quem está rompido com o ex-governador Paulo Souto.
... Não. Mas acho que a forma que Ilhéus foi tratada por ele me levou claramente, em nome dos meus compromissos com a cidade, a mudar de partido. É uma separação de natureza política.
“Você governar na base da porrada, da pancada, do chicote, do medo e da intimidação é diferente de você governar democraticamente”.
O senhor falou em Chicote, arrogância... características que fazem a população baiana lembrar do carlismo. O senhor esteve lá...
... foi uma experiência válida. Fui convidado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e ele nos disse claramente que uma aliança com o PFL baiano nos ajudaria. Foi uma decisão pragmática.
O senhor acertou ou errou?
Em tudo a gente erra e acerta. Em determinado momento foi bom para Ilhéus. Conseguimos o Centro de Convenções, recursos para obras estratégicas. César Borges me ajudou muito. Detesto ingratidão. Mas algumas coisas sob o ponto de vista político, para mim, foram prejuízos.
“Algumas coisas (aliança com o carlismo) sob o ponto de vista político, para mim, foram prejuízos”.
Em sua primeira resposta nesta entrevista o senhor falou em especulação. Vamos, então, especular um pouco. Se o PP não fechar com Wagner e for cair nos braços de Paulo Souto, como o senhor fica?
Não acredito que o partido tome esse caminho. Temos uma aliança nacional e essa aliança nos leva a apoiar a candidata Dilma Roussef. Portanto estamos trabalhando pela aliança estadual. Em política você pode ter popularidade, perder, ganhar. Isso é cíclico. Você não pode é perder credibilidade por que os princípios são destruídos.
Vou continuar com as provocações. Vou oferecer duas opções ao senhor. Deputado em 2010 ou prefeito em 2012. Qual a preferência?
Primeiro, obrigado pelas oportunidades. Quem na vida pode ter estas oportunidades todas? (risos e, depois, uma grande pausa). Eu gostaria mesmo em condições em que eu pudesse definir isso individualmente, gostaria de ser candidato a deputado federal. As circunstâncias no meu partido indicam, no entanto, que devo seguir a uma candidatura a deputado estadual. Esse é o caminho. As pessoas na rua têm me perguntado se eu vou voltar (a Prefeitura de Ilhéus). Eu mantenho minha posição em relação a isso. Devo mesmo ser candidato a deputado estadual. É o que me anima. As pesquisas indicam que eu recuperei a popularidade por que mantive a mesma relação com a população de Ilhéus. Tenho credibilidade, trabalho, postura que me credenciam. Eu não perdi a alma política. Eu perdi uma eleição.
“Em política você pode ter popularidade, perder, ganhar. Isso é cíclico. Você não pode é perder credibilidade por que os princípios são destruídos”.
Eu queria que o senhor fizesse uma avaliação da representatividade de Ilhéus em Salvador e em Brasília.
A gente pode melhorar muito. Você não pode ter uma visão pequena das coisas. Não estou dizendo aqui que as pessoas não estão trabalhando, batalhando. Mas não pode ter uma visão restrita. Em um mandato você tem que tratar de questões macro, que dizem respeito à nossa economia, à nossa cultura, à nossa realidade. Meu mandato foi estratégico para a cacauicultura e para os produtores do país inteiro, para os trabalhadores brasileiros. Tem que ter uma visão mais focada na mudança estruturante da região. Sem entrar em críticas pessoais, entendo que podemos melhorar muito.
Como foi enfrentar as ruas de Ilhéus logo depois da derrota para Valderico Reis?
Foi triste e doloroso. Mas sei distinguir os amigos do poder e os meus amigos de verdade. Os amigos do poder são nômades e inorgânicos. Doloroso para mim foi não ter conseguido mostrar à população de Ilhéus de que o professor Soane Nazaré (candidato que Jabes apoiou) seria um nome bem melhor que Valderico...
“Quando ela (deputada Ângela Souza) viu que as obras não estavam vindo, que o dinheiro federal não aparecia, que não tinha dinheiro estadual e a minha natural fadiga de muitos anos à frente do poder, ela caiu fora, pulou do barco”.
... Conheço muita gente que acusa o senhor de ter, de alguma forma, contribuído para a eleição de Valderico, sob a tese do “quando pior para a cidade, melhor para mim”....
... Essa é uma crítica leviana. Nós fizemos uma avaliação intensa para discutir quem seria o candidato. E como eu estava no partido que tinha o governador do estado, eu discuti com ele. O nome de Soane Nazaré era um nome de consenso por que, na verdade, nenhum dos nossos companheiros pontuava. Nós estávamos num processo de desgaste que começou no segundo semestre de 2003 quando as obras que Paulo Souto prometeu não chegaram. Lutei, me esforcei o máximo que pude.
Há uma história de que durante um encontro do senhor e da sua então vice, Ângela Sousa, com o governador, ela teria decidido não ser a sua candidata por conta do seu desgaste político. E teria dito isso ao senhor e ao governador no momento do encontro. Para uma surpresa geral. Aconteceu mesmo isso?
Não. Ângela nunca tinha feito política na vida. Convidei-a para ser minha vice porque ela era do PTB e era minha amiga. E a tratei de forma especial. Quando ela viu que as obras não estavam vindo, que o dinheiro federal não aparecia, que não tinha dinheiro estadual e a minha natural fadiga de muitos anos à frente do poder, ela caiu fora, pulou do barco. Houve uma conversa em Salvador. Na proposta, ela topava assumir a prefeitura na condição de vice-prefeita e eu iria para um cargo em Salvador. Mas ela me disse que o compromisso seria demitir todos os meus companheiros. Não aceitei. Não havia nada de ideológico no raciocínio dela. Era uma decisão pragmática.
Vou ser pragmático também. Sua equipe era mesmo muito desgastada. A cidade sempre criticou a permanência de um mesmo grupo o tempo todo.
É uma injustiça. Em cada governo mudei muita gente. Mas eu tinha alguns companheiros de partido, ligados à máquina e à luta partidária. Ai vem a eleição, alguns trabalham, suam a camisa, comem sal e depois ficam fora? Não. É um preço que você paga e eu paguei esse preço!
Que avaliação o senhor faz da atual administração de Ilhéus?
Nosso partido trabalhou intensamente para afastar Valderico. E esse apoio que nós demos, demos em nome da cidade. Newton era secretário e nunca levantou a voz para dizer nada de Valderico. Essa era uma preocupação que discutimos internamente durante a crise. Newton nunca foi um crítico de Valderico. Era um “amém”. Mas não tinha outra saída. Quando Newton assumiu, fizemos uma reunião com a nossa bancada federal do PP e nos colocamos à disposição para ajudar. Dissemos que tínhamos o Ministério das Cidades. Nunca fomos procurados.
“Vem a eleição, alguns trabalham, suam a camisa, comem sal e depois ficam fora? Não. É um preço que você paga e eu paguei esse preço!”
Mas mesmo não tendo sido procurado, não deveria ser obrigação das nossas lideranças trazerem as tais ajudas?
Mas como? Você tem que ter projetos! É o mínimo. Sabíamos que os nossos caminhos seriam diferentes, mas a cidade está acima disso. Hoje a cidade está com saudade até de um tal “Feijão com Arroz”. Para ser prefeito de Ilhéus exige vocação política, determinação, capacidade de trabalho e planejamento, visão estratégica. Hoje, infelizmente, a cidade passou de euforia para frustração.
Seus governos tiveram isso?
Sem dúvida. Pode analisar. Em todas as áreas definíamos metas. Realizávamos o Fórum Compromisso com Ilhéus. É verdade que algumas coisas a gente não conseguia realizar. Mas realizamos muitas outras. Tínhamos objetivos! A liderança é fundamental em qualquer situação. Hoje falta essa liderança a Ilhéus por que não há vocação. Tive um dia desses um encontro com um vereador da cidade e ele disse que ouviu do prefeito a seguinte frase: “estou doido para acabar isso aqui e ir embora”. E aí? Você imagine.
“Hoje, infelizmente, Ilhéus passou de euforia para a frustração”.
O senhor responde a diversos processos.
Sempre que governei lutei para não ter problema. A administração pública é complicadíssima. A maioria destas denúncias são as famosas “aprovadas com ressalvas” no tribunal. O MP usou a maioria destas ressalvas como denúncias contra mim. O que vou fazer? Os processos estão andando. Eu tenho a consciência tranquila de que sempre tive o maior respeito pelo dinheiro público.
Na década de 80, o senhor surgiu como uma nova liderança política da cidade. Mas depois não surgiu mais ninguém. Não surgiu ou o senhor não deixou?
O problema está ligado à vocação. Gosto. Em 86 eu elegi João Lyrio deputado estadual. Uma pessoa experiente que depois foi eleito prefeito. Ele demonstrava gosto. Quem faz isso tá fortalecido ou não? Outros tentaram. E não faço nenhuma crítica às pessoas não. São circunstâncias.
“Reconheço que o que aconteceu na reta de chegada da eleição em Ilhéus, nem Ruy nem ninguém ganhava de Newton”.
Desde o seu primeiro governo o senhor teve uma briga histórica com o seu então secretário de Saúde, Ruy Carvalho. Ficaram muitos anos como adversários e, na última eleição, voltaram a ficar juntos. As coisas estão resolvidas?
É bom que você saiba que nunca tive problema pessoal com Ruy. Nunca. Tivemos discordâncias administrativas e isso é natural. Lula, Wagner têm. E tem hora que quando você tem discordância administrativa, o melhor é você ter uma decisão firme e dizer: companheiro não dá mais certo. Ele entrou no PT. Meu adversário durante muitos anos foi Roland Lavigne. Não foi Ruy. Ruy é uma pessoa educada. E a eleição passada eu coloquei a seguinte questão para o governador: eu acho que tenho melhores condições de disputar essa eleição do que Ruy. Mas acho que não podemos estar separados. Havia uma euforia na cidade. O PT não abriu mão e fui apoiar Ruy. Foi isso que aconteceu. Reconheço que o que aconteceu na reta de chegada da eleição em Ilhéus, nem Ruy nem ninguém ganhava de Newton.
“Me colocaram (na Uesc) para dar “Prática Forense”. Imagine: alguém que está há mais de 20 anos sem reciclagem nessa área - onde até parte de teoria havia esquecido -, passar a ensinar prática. Aí eu disse que não me sentia em condições. Fui sincero com as pessoas”.
O mais novo embate do senhor é com a Universidade Estadual de Santa Cruz, que o acusa de não dar aula.
Estou muito constrangido com isso, sinceramente. Eu só vim ter problemas com a universidade de 2007 para cá, quando assumi a secretaria geral do PP na Bahia. Pedi a universidade licença sem vencimentos. Ganho 1 mil e 100 reais lá. Estou me abrindo pela primeira vez por que é um assunto desagradável, muito desagradável. Entrei na Uesc em 1980 e exerci muitos mandatos. Fiquei 12 anos fora da universidade. Eu tenho direito a esta condição no Estatuto do Servidor Público. Não dei aula nem recebi salários. Sai de folha. E na condição de homem público lutei pela universidade sempre. Continuarei lutando por que esta luta independe de pessoas. (Antônio) Balbino, governador da Bahia, foi professor da Faculdade de Medicina e nunca deu aula. Estava sempre em mandato popular e nem por isso foi relapso. Em 2007 não acataram o meu pedido de licença e me colocaram para dar a matéria “Prática Forense”. Imagine: alguém que está há mais de 20 anos sem reciclagem, nessa área - onde até parte de teoria havia esquecido -, passar a ensinar prática. Aí eu disse que não me sentia em condições. Eu fui sincero com as pessoas. Agora em 2009 pedi novamente a licença sem vencimentos. Por último, o secretário estadual de Educação (Adeum Sauer) me convidou para participar de uma comissão, com horário equivalente às minhas aulas. Daria duas manhãs ou duas tardes em Salvador. Pois o ofício veio para a Uesc e foi indeferido. A universidade não acatou um ofício e um pedido do secretário de estado. Sinceramente não consigo entender.